TL;DR
O termo "Inquisição Protestante" e um neologismo popular, sem qualquer equivalente na historiografia academica. não existe nenhuma referencia em livros ou fontes academicas a algo que possa ser classificado como uma Inquisição Protestante. Se pesquisarmos no Google Books ou em qualquer base de dados histórica, não encontraremos nada que corresponda a esse conceito.
A confusao nasce da tentativa de equiparar perseguição religiosa generica com um tribunal eclesiástico formalizado -- com procedimentos juridicos, identificação sistematica de hereges e mecanismos institucionais de julgamento. perseguição religiosa existiu em praticamente todos os grupos ao longo da historia, incluindo entre protestantes. Porem, nem toda perseguição constitui uma inquisicao. Se adotassemos esse criterio amplo, teriamos de classificar como "inquisicao" a perseguição religiosa na China contemporanea, na Coreia do Norte ou no Tibete -- o que seria obviamente absurdo.
O que importa e a natureza, a intensidade, a frequencia e a institucionalidade da perseguição. Ha uma diferença fundamental entre preconceito social difuso -- como o que históricamente existiu contra católicos nos Estados Unidos ou contra religioes de matriz africana no Brasil -- e um aparato estatal-eclesiástico sistematico de identificacao, julgamento e execucao de hereges, como existiu na Espanha e em Portugal.
Quando a Reforma se consolidou na maior parte dos países que a adotaram, geralmente ja existia uma estrutura eclesiástica católica previa. Os reformadores não pretendiam criar uma igreja nova; pretendiam reformar a igreja existente, removendo o que consideravam erros doutrinarios e praticas extra-biblicas ou contrarias a sa doutrina. As estruturas eclesiásticas eram aproveitadas e transformadas para refletir os principios reformados.
Nos países que se tornaram protestantes, os católicos foram geralmente reduzidos a cultos privados. Esses cultos não eram reconhecidos como religiao oficial, de modo semelhante ao que acontecia com os judeus em diversas regioes, que praticavam sua fe de forma mais reservada. Na Escocia, por exemplo, a missa católica foi banida, e a população das terras altas -- mais conservadora -- passou a se reunir em casas particulares. Sem clero ordenado disponivel, surgiu uma forma indireta de lideranca leiga, inclusive feminina, nessas comunidades residenciais.
Essa situação guarda alguma semelhanca com o que ocorre hoje na Coreia do Norte, onde existe uma igreja católica em Pyongyang, porem sem clero ordenado permanente. Quando um sacerdote visitante comparece, os sacramentos sao celebrados; do contrario, os leigos precisam decidir se realizam algum tipo de cerimonia por conta própria ou simplesmente não celebram nada.
Na maioria dos casos, não houve perseguição sistematica nos países que se tornaram protestantes em nivel comparavel ao que acontecia nos países católicos. O que predominou foi o principio do "cuius regio, eius religio" -- a religiao do principe determina a religiao do povo --, um entendimento informal que remontava as conversoes dos reinos barbaros ao cristianismo. Quando Clovis se converteu, toda a sua corte e povo seguiram; o mesmo ocorreu com Harald Bluetooth na Dinamarca e com outros reis escandinavos e germanicos. não era uma lei formal, mas um entendimento social de que a conversao do rei significava a conversao do reino.
Contudo, isso não era regra absoluta. Mesmo nos reinos onde reis pagaos se converteram ao cristianismo, o paganismo continuou sendo praticado, a menos que o monarca instituisse politicas ativas de perseguição -- como no caso de Santo Olavo da Noruega, que entrou em guerra contra chefes pagaos e acabou morto em batalha.
A Polonia, apesar de ser hoje um pais massivamente católico (mais de 90% da populacao), era muito mais diversa religiosamente antes da sua particao. Apenas 60 a 65% da população era católica; o restante se dividia entre ortodoxos, protestantes e judeus -- estes ultimos constituindo cerca de 10% da populacao. A Polonia era, inclusive, um dos reinos mais tolerantes da Europa com relação a diversidade religiosa.
A Transilvânia oferece outro caso notavel. Quando o principe se converteu do católicismo ao calvinismo, a maioria dos cortesaos o seguiu. Posteriormente, ele migrou para o unitarismo -- doutrina que rejeita a divindade de Cristo e a Trindade, sustentando que Jesus e a criação perfeita de Deus, mas não e Deus. Os unitarios da Transilvânia descendiam intelectualmente dos discipulos de Miguel Serveto que sobreviveram e introduziram essa fe em regioes como Italia, Polônia e Transilvânia. Na Polônia, essa corrente deu origem ao socinianismo.
A aliança entre Portugal e Inglaterra -- formalizada pelo Tratado de Windsor em 1386, mas históricamente mais antiga -- e a mais longa aliança entre países do mundo. Quando a Inglaterra se tornou protestante, Portugal não rompeu essa aliança nem passou a admitir protestantes em seu territorio. As relacoes se mantiveram por razoes politicas e estrategicas.
A identidade portuguesa, conforme descrita na historiografia especializada (como em "The Portuguese in the Age of Discovery"), foi forjada no anticastelhanismo -- a rivalidade histórica com o Reino de Castela. Quando Portugal perdeu sua soberania em 1580, após a morte de Dom Sebastiao na Batalha de Alcacer-Quibir e o breve reinado do Cardeal Henrique, tres pretendentes disputaram o trono. O rei da Espanha venceu essa disputa, iniciando a Uniao Iberica.
O unico candidato que garantiria a soberania portuguesa era o Prior do Crato, que, após perder a guerra civil interna, fugiu para a Inglaterra com tres mil portugueses e foi recebido na corte da Rainha Elizabeth I. Esses portugueses participaram da campanha de Francis Drake contra a Peninsula Iberica, cujos objetivos incluiam enfraquecer a Marinha Espanhola e restaurar Portugal como nação independente com o Prior do Crato no trono.
Embora essa tentativa não tenha tido exito, Portugal permaneceu sob dominio espanhol ate 1640. A Uniao Iberica prejudicou gravemente Portugal: a Marinha Portuguesa foi incorporada a espanhola e devastada nas guerras da Espanha -- como na derrota da Invencivel Armada --, e o pais acumulou dividas e perdeu sua posição como potencia naval.
A Guerra de Restauração Portuguesa de 1640 teve apoio politico de Oliver Cromwell, que reconheceu Portugal como pais independente, e do Cardeal Richelieu. Isso demonstra que as alianças politicas da epoca não seguiam linhas estritamente religiosas: a França católica apoiou a Suecia luterana na Guerra dos Trinta Anos e favoreceu a independencia portuguesa, porque seu objetivo primario era enfraquecer os Habsburgos, que a cercavam por todos os lados.
A Espanha tornou-se a maior potencia militar da Europa a partir das Guerras Italianas (por volta de 1515-1525), sendo o primeiro pais europeu a manter um exercito permanente. Os tercios espanhois so foram derrotados decisivamente na Guerra dos Trinta Anos, por volta de 1640. Essa supremacia militar permitiu a Espanha anexar Milao, as Terras Baixas, o sul da Italia, Portugal e expandir-se sobre o Sacro Imperio e a Franca.
O papado desenvolveu, desde a Reforma Gregoriana e das querelas das investiduras, uma teoria politica segundo a qual o Papa detinha não apenas poder espiritual, mas tambem poder temporal superior ao de qualquer soberano. O Papa era considerado soberano do mundo, com autoridade para depor reis e redistribuir reinos. Essa doutrina foi aplicada na pratica: o Tratado de Tordesilhas, mediado pelo Papa Alexandre VI, dividiu o mundo entre Portugal e Espanha, concedendo a Portugal os territorios a leste da linha (Africa e India) e a Espanha os territorios a oeste (Americas).
A França contestou essa divisão, perguntando ironicamente pelo "Testamento de Adao" que justificaria tal reparticao. Mais tarde, a Franca, a Inglaterra e a Holanda simplesmente ignoraram o tratado e estabeleceram suas proprias colonias.
A colonia francesa na Guanabara (Rio de Janeiro), conhecida como França Antártica, teve forte influencia protestante. O Almirante Coligny, heroi de guerra convertido ao calvinismo (os huguenotes franceses), viu na colonia uma oportunidade de criar um refugio para protestantes perseguidos na Franca. A intencao era fundar uma comunidade de convivencia entre católicos e protestantes.
O projeto fracassou quando Villegagnon, inicialmente amigo de Calvino, rompeu com o calvinismo e com o católicismo, criando sua própria interpretação da Santa Ceia. Expulsou os protestantes da ilha e executou alguns que retornaram. Um dos sobreviventes foi posteriormente identificado enquanto pregava, preso e condenado a morte por enforcamento. Segundo relatos, como o executor não era habilidoso, o Padre Jose de Anchieta -- hoje santo da Igreja católica -- teria estrangulado o condenado com as proprias maos. A apologetica católica tenta revisar esse episodio, alegando que o homem foi morto por ser invasor frances e não por ser protestante, e que teria se convertido ao católicismo antes de morrer.
Desde que Israel deixou de ser nação independente e o povo judeu se dispersou, os profetas exortaram a manutencao da religiao, da cultura e das tradicoes judaicas. Quando o cristianismo se tornou religiao oficial do Imperio Romano com Constantino e Teodosio, o paganismo e outras religioes comecaram a ser perseguidos, e os judeus foram progressivamente cercados: proibidos de ocupar cargos publicos, servir no exercito e participar da vida publica.
Os reinos arianos (unitarios cristologicos), como os visigodos e ostrogodos, concediam mais liberdade aos judeus do que o Imperio Romano Oriental. Isso provavelmente se devia a maior proximidade teologica entre o unitarismo ariano e o monoteismo judaico. Contudo, quando esses reinos se converteram ao católicismo, a perseguição se intensificou significativamente. Na Espanha visigotica, pouco antes da invasao islamica, os reis tinham planos de escravizar toda a população judia.
Os muçulmanos que conquistaram a Peninsula Iberica implementaram uma politica de preservação de minorias religiosas. No Imperio Islamico, judeus e cristaos eram julgados pelas proprias leis -- os judeus pela Lei Mosaica, incluindo questoes de divorcio, heranca e ate penalidades como apedrejamento. As minorias tinham alguma liberdade de culto, embora não houvesse equidade: oficialmente não podiam portar armas, andar a cavalo, e a cerimonia de pagamento da jizya (imposto sobre infieis) era conduzida de forma vexatoria.
A Espanha crista da Reconquista incorporou parte dessa cultura de tolerancia. A Peninsula Iberica foi, em geral, mais tolerante com judeus e muçulmanos do que a França ou a Inglaterra, onde as comunidades judaicas eram pequenas e fortemente estigmatizadas. O Concilio de Latrao IV (1215) formalizou a segregacao: proibiu relacoes sexuais entre judeus e cristaos, determinou que judeus não podiam viver nos mesmos bairros que cristaos, não podiam sair de casa em certos dias santos -- pois era comum que a populacao, associando a morte de Cristo aos judeus locais, os massacrasse no Natal e na Pascoa.
Navarra foi o reino mais tolerante com os judeus na historia da Europa. não havia proibição de judeus em cargos publicos; a corte era composta de medicos, astronomos e astrologos judeus. não ha evidencia de que os judeus navarros usassem o chapeu vexatorio pontudo ou a estrela de Davi amarela que o Concilio de Latrao IV impunha para distingui-los dos cristaos.
A França baniu sua comunidade judaica no final do seculo XIII, e a Inglaterra fez o mesmo. Na alemãnha, judeus eram obrigados a prestar servico militar sem poder usar armas -- ha ilustracoes de judeus lutando com os punhos em meio a soldados com armaduras e espadas.
A Inquisição espanhola foi criada em 1480 para combater comunidades cripto-judaicas. A partir de 1390, a perseguição antissemita na Espanha se intensificou tanto que muitos judeus se convertiam para escapar -- porem o judaismo talmudico sefardita permitia conversoes fingidas em situacoes de perseguição. Esses "conversos" praticavam o judaismo em segredo. Para o católicismo, a apóstasia de um convertido constituia heresia, e a Inquisição foi instituida para perseguir essas comunidades.
O protestantismo e outras heresias não foram, na epoca, o motivo para a criação da Inquisicao. A unica excecao foi a Inquisição portuguesa no seculo XVI: o rei alegou querer perseguir protestantes, mas não havia comunidade protestante significativa em Portugal. O pretexto real era perseguir judeus e obter os beneficios financeiros decorrentes dessa perseguição. O contexto contrarreformista do Concilio de Trento facilitava a obtencao de autorização papal para uma Inquisicao.
Nas Terras Baixas, os Tribunais de Sangue -- como os holandeses chamavam o periodo de dominação espanhola que desencadeou a Guerra dos Oitenta Anos -- funcionavam como uma Inquisição formal, com grao-inquisidor e procedimentos distintos (homens eram queimados na fogueira; mulheres eram enterradas vivas). O próprio Rei Felipe da Espanha afirmou em carta que a Inquisição das Terras Baixas era pior que a espanhola. A perseguição atingiu não apenas protestantes, mas tambem católicos considerados tolerantes demais com as minorias protestantes.
A tese de que a Reforma so prosperou onde os principes a impuseram e refutada pela evidencia histórica. Existem diversos casos em que o protestantismo se tornou religiao da maioria sem apoio governamental:
A Austria tinha 60 a 70% de população protestante antes da Contra-Reforma; Viena era 80% protestante. A Boemia era 85% protestante, beneficiada pelo legado husita do seculo XV. A Hungria atingiu 80 a 90% de protestantismo sob dominio otomano, onde não havia perseguição católica. Em todos esses casos, o governo era católico.
O primeiro principe a se converter publicamente ao protestantismo foi o de Hesse, em 1524 -- sete anos após as 95 Teses. Se a Reforma dependesse dos principes, teria morrido antes de comecar, pois foi condenada formalmente em 1519 e Lutero julgado pela corte imperial em 1520.
A narrativa de que os principes aderiram a Reforma por motivacoes financeiras (expropriação de mosteiros) e uma leitura materialista que não se sustenta como explicação geral. Na Dinamarca, por exemplo, os mosteiros foram preservados: a lei determinava que ninguem tocaria neles ate a morte do ultimo monge. Houve casos de expropriação motivada por ganancia? Sim. Mas isso não explica a totalidade do fenomeno.
A Igreja detinha enorme poder financeiro e muitas vezes abusava dele. Monges beneditinos eram os principais produtores de polvora na Europa desde o seculo XV. Mosteiros dominavam mercados de livros, cerveja e outros produtos. Os camponeses eram obrigados a trabalhar gratuitamente nas terras da Igreja como forma de imposto feudal. A corrupcao moral do clero e o sentimento anticlerical e antimonastico existiam muito antes da Reforma.
A Contra-Reforma buscou consolidar o católicismo nos países que permaneciam católicos e reconquistar os que se tornaram protestantes. Isso gerou guerras devastadoras. A Guerra dos Trinta Anos matou cerca de um terco da população civil da alemãnha, especialmente nas regioes protestantes.
Na Austria, o imperador publicou editos que tornaram o católicismo a unica religiao legal: quem não se convertesse era perseguido, fugia ou se escondia. Na Boemia, quando os emissarios habsburgos chegaram a Praga para impor o mesmo, a população -- ja armada e antecipando a medida -- arremessou-os pelas janelas (a Segunda Defenestração de Praga, 1618), dando inicio a Guerra dos Trinta Anos. após a derrota dos boêmios, o católicismo foi imposto pela forca.
O arcebispo ortodoxo da Republica Tcheca afirmou que o agnosticismo predominante no pais hoje resulta diretamente dessa imposição forcada: o católicismo nunca foi uma espiritualidade genuina na Boemia, mas uma religiao estrangeira imposta por armas. Numa catedral de Praga, ha uma estatua de Santo Inacio de Loyola pisando na garganta de Lutero -- simbolo não de vitoria teologica, mas de dominação militar.
Na Hungria, a recatolização foi parcialmente bem-sucedida, mas 20% da população resistiu. O secularismo moderno afetou mais os católicos: de 80% a população caiu para 30-35%, enquanto os protestantes cairam de 20% para 12-13%, com o calvinismo crescendo ligeiramente. Isso se deve ao fato de o protestantismo ter se tornado, na Hungria, um movimento de identidade nacional contra a imposição austriaca -- semelhante ao católicismo na Irlanda.
Os debates entre reformadores e teólogos católicos demonstram a solidez intelectual do protestantismo.
No debate de Leipzig (1519), Lutero enfrentou Johann Eck. Eck não era um bom teologo, mas um retorico habilidoso que usava falacias e "red herrings" para desviar o debate. Lutero respondeu com exegese cuidadosa de Mateus 16 e outros textos. A Universidade de Leipzig, incapaz de dar um parecer sem implicacoes politicas, transferiu a decisão para a Universidade de Paris. Esta, por sua vez, declarou que nem Lutero nem Eck tinham autoridade para determinar a verdade -- essa cabia aos teólogos, especialmente aos de Paris. Essa posição refletia o galicanismo frances, que entendia a Universidade de Paris, e não o Papa, como arbitro final em questoes doutrinarias.
No debate de Lausanne, Calvino -- que havia estudado os Pais da Igreja durante sua formação em Paris -- demonstrou dominio superior de doutrina e historia eclesiástica. Lausanne se tornou protestante após o debate. Na Suica, era pratica comum resolver questoes religiosas por meio de debates publicos: Zurique desafiou qualquer um a provar que Zwinglio estava errado, prometendo mudar de religiao se isso fosse demonstrado. Nunca aconteceu.
No Coloquio de Poissy (1561), Teodoro de Beza -- sucessor de Calvino em Genebra -- e outros reformadores debateram com teólogos católicos na Franca. Quando as premissas eram comuns e o campo era equilibrado, os protestantes demonstravam superioridade doutrinaria consistente. O motivo: o alto clero católico da epoca era selecionado frequentemente por conexoes politicas e familiares, não por merito teologico. O próprio clero era, em grande medida, analfabeto funcional em questoes doutrinarias. Lutero observou que um padre tipico mal conhecia sua própria missa. O movimento contrarreformista reconheceu isso: a pauta inicial dos jesuitas era justamente educar o clero.
A filosofia tomista, adotada como teologia oficial pelo Concilio de Trento, sustenta que e possivel chegar a Deus e a verdade atraves da Razão humana. Para Tomas de Aquino, a mente humana não foi totalmente contaminada pelo pecado original; e possivel, portanto, usar a Razão de forma autonoma para alcancar conclusoes verdadeiras.
Essa premissa tem consequencias profundas. Se a Razão e autonoma, as ciencias e as artes liberais deixam de ser instrumentos de glorificação divina e se tornam exercicios de raciocinio independentes da revelacao. Isso seculariza o conhecimento.
A ortodoxia protestante, especialmente na tradição reformada e pressuposicionalista, rejeita essa premissa. Calvino sustenta que a mente humana e uma "fabrica de idolos": confiando em sua própria Razão, o homem produz falsos deuses e conclusoes erroneas. A verdade, nessa perspectiva, e revelação do Espirito Santo. Se alguem fala uma verdade -- mesmo que seja um herege ou um adversario -- essa verdade e uma emanação de Cristo, que e o caminho, a verdade e a vida (Joao 14:6). O Espirito Santo e quem ilumina a compreensao; a Razão por si mesma, contaminada pelo pecado, não e confiavel como via autonoma para a verdade.
A parabola do rico e Lazaro (Lucas 16:19-31) ilustra esse ponto: o rico, no inferno, pede que Lazaro seja enviado a avisar sua familia. A resposta e que, se não acreditam em Moises e nos profetas, não acreditarao nem mesmo em alguem que ressuscite dos mortos. A premissa secular -- de que evidencia suficiente convence qualquer pessoa racional -- e rejeitada pelo próprio Cristo. A conversao não e produto da Razão, mas da ação do Espirito Santo.
A justificativa de Aquino para o Estado tambem reflete essa logica: ele argumenta que o Estado e uma necessidade da Razão humana (a sociedade precisa de autoridade para mediar conflitos), e não que o Estado existe porque Deus instituiu autoridades com fonte divina. Essa diferença e crucial: a partir do momento em que o Estado se justifica pela Razão e não pela revelacao, um anarquista pode contestar sua necessidade, e o debate se torna interminavel. Se a fundamentação fosse biblica -- as autoridades sao divinamente constituidas (Romanos 13; Daniel 10) --, a questao estaria resolvida no ambito da cosmovisão crista.
O tomismo, portanto, e identificado pela perspectiva reformada como a raiz epistemologica do secularismo, não o protestantismo. Foi a premissa de que a Razão humana pode operar autonomamente para descobrir a verdade que abriu caminho para o Iluminismo, o materialismo e toda a fragmentação filosofica moderna. Maquiavel, ao definir o governo como justificado pela própria existencia ("o governante pode fazer o que quiser, desde que as consequencias sejam beneficas"), ja operava dentro dessa logica de Razão autonoma, sem referencia a lei divina.
Toda a tradição crista reconhece que as autoridades sao divinamente constituidas. Jesus afirmou a Pilatos que sua autoridade lhe foi concedida (Joao 19:11). Daniel descreve anjos-principes governando nacoes. Mas as tradicoes divergem sobre os limites da obediencia.
A tradição católica reconhece um poder superior a todos os soberanos: o Papa, que pode depor reis hereges ou perseguidores da fe e redistribuir seus reinos. A tradição luterana tende a uma postura mais passiva diante das autoridades. A tradição reformada (calvinista) e a mais explicita sobre o direito de resistencia: quando uma autoridade superior age contra a fe, as autoridades menores (magistrados locais, cidades, parlamentos) tem o dever de resistir. A resistencia deve comecar pelas instancias intermediarias antes de se tornar um movimento coletivo.
Isso explica por que os reformadores da tradição calvinista sempre defenderam a descentralização do poder. Se o poder e centralizado num governante absoluto que impoe medidas contrarias a fe, não ha base institucional para resistencia legitima. A Guerra Civil Inglesa (1642) comecou precisamente porque Carlos I tentava impor uma religiao cada vez mais católica e centralizar o poder de forma absolutista, enquanto o Parlamento -- composto majoritariamente de puritanos -- se opunha. A tradição reformada prefere republicas aristocraticas ou monarquias constitucionais a governos absolutistas.
A Revolucao Americana e classificada por autores como Rutherford (Lex, Rex) e analistas da tradição reformada como uma revolucao conservadora -- uma resistencia de autoridades menores contra a tirania, dentro dos parametros da teoria calvinista de resistencia. A Revolucao Francesa, por contraste, e uma ruptura radical baseada em premissas iluministas.
Nietzsche, no capitulo "Renascenca e Reforma" de "Humano, Demasiado Humano", argumenta que a Reforma foi um movimento reacionário. Para ele, os valores da Renascenca -- humanismo, proto-secularismo -- eram precursores do Iluminismo, e Lutero representou uma trava conservadora contra esse progresso. Nietzsche conclui: se Lutero tivesse sido queimado como Jan Hus, não teria havido Contra-Reforma, e a secularização teria avancado sem obstaculos.
A Reforma pode ser considerada revolucionaria no sentido mais primitivo do termo -- uma mudanca que parte de um ponto, gira e retorna a uma posição original. O protestantismo resgatou principios do cristianismo primitivo e da teologia medieval que o humanismo renascentista estava abandonando. A Contra-Reforma, por sua vez, so existiu como reação a Reforma: sem ela, a corrupcao clerical, a secularização e a perda de valores religiosos teriam continuado acelerando.
A Reforma, portanto, não causou o secularismo. O secularismo nasceu das guerras de religiao: quando intelectuais perceberam que católicos e protestantes não desapareceriam, buscaram um "meio-termo" que não favorecesse nenhum dos lados -- e esse meio-termo foi construido sobre a premissa tomista de que a Razão autonoma pode chegar a verdade sem a revelação divina. Essa premissa e o fundamento de toda a politica, ciencia e legislação moderna -- e tambem a raiz dos problemas que dela derivam.
A afirmação de que Calvino foi inspirado pela iconoclasia islamica, ou que a iconoclasia crista do seculo VIII foi causada pelo contato com o Isla, constitui uma falacia de falsa causalidade. Estudos academicos recentes (como "Forging the Byzantine Iconoclasm") argumentam que o termo correto e "iconomaquia" (disputa sobre as imagens), não "iconoclastia" (destruição de imagens), e que grande parte da narrativa sobre destruição sistematica de icones resulta de propaganda iconofila posterior.
O movimento iconomaquista foi uma reação interna do cristianismo oriental, não uma importação islamica. Os muçulmanos provocaram reflexao, mas o debate sobre imagens ja existia dentro do próprio cristianismo. Ate o seculo IV-V, imagens eram aceitas com finalidade didatica ou estetica. A partir do seculo V-VI, desenvolveu-se na teologia oriental a nocao de que icones e reliquias eram catalisadores de graca -- canais que tornavam a oração mais "eficiente" do que a oração simples. Orar diante de uma reliquia de um santo seria mais eficaz do que orar diretamente a Deus. Essa teologia, estendida a mariologia, chegou ao ponto de afirmar que orar a Maria e mais eficiente do que orar diretamente a Deus, pois Jesus, como filho, não recusaria nada a sua mae.
Constantino não criou a Igreja católica. A corrupcao eclesiástica e anterior a ele, mas se agravou significativamente quando o cristianismo se tornou religiao de Estado. A conversao forcada ou socialmente imposta de pagaos introduziu na Igreja uma massa de pessoas sem conversao genuina. Constantino expropriou templos pagaos e os transformou em igrejas -- o Partenon de Atenas, dedicado a Atena, foi convertido em igreja crista; diversas igrejas históricas de Roma ocupam antigos templos pagaos.
A Igreja católica do seculo IV e diferente da do seculo VIII, que e diferente da do seculo XII, do XVI (Concilio de Trento), do XIX (ultratradicionalista) e da contemporanea. O protestantismo resgatou aspectos da teologia e do ethos medieval que a própria Renascenca estava abandonando, e o Concilio de Trento, paradoxalmente, tambem rompeu com parte da tradição medieval que a Igreja tinha.
Existe uma assimetria no ecumenismo conservador contemporaneo. Em movimentos que reunem católicos e protestantes em pautas politicas comuns, ha uma articulação sistematica para conformar a opiniao publica com posicoes católicas. Protestantes sao pressionados a defender a Inquisicao, afirmar que o católicismo criou as universidades, salvou a Europa e fundou a cultura ocidental. Em contrapartida, quando protestantes pedem o reconhecimento do legado da Reforma na educacao, alfabetização e cultura, encontram resistencia.
Esse desequilibrio expoe protestantes, especialmente os sem preparo apologetico, a uma catequese indireta. Um católico adolescente medio ja leu apologistas católicos e sabe defender sua fe; o protestante medio, especialmente de igrejas neopentecostais, frequentemente não domina a Biblia o suficiente para responder. Isso os torna vulneraveis a conversao, como ja ocorreu em diversos casos publicos dentro de movimentos conservadores brasileiros.
Lutero era doutor em filosofia antes de ser doutor em teologia. Calvino estudou direito e filosofia em Paris. Seus primeiros escritos demonstram dominio filosofico amplo. O protestantismo não rejeita a filosofia por ignorancia; rejeita a filosofia que contradiz a revelação biblica -- o que, na pratica, abrange quase toda a producao filosofica, de Aristoteles a Kant, de Nietzsche a Foucault. O que o protestantismo valoriza e a filosofia que opera dentro dos pressupostos da cosmovisão crista, como a tradição pressuposicionalista de Van Til, Bahnsen e Schaeffer.
A afirmação de que o feudalismo aboliu a escravidao na Europa e um produto do franco-centrismo historiografico. A maior parte da literatura sobre a Idade Media que chega ao Brasil vem da Franca, e os autores franceses, quando falam de "Europa", frequentemente se referem a Franca. Quando dizem que a escravidao foi abolida na Idade Media, referem-se a Franca. Quando falam de feudalismo, referem-se ao sistema frances. Quando falam de cavalaria, referem-se a cavalaria francesa.
A escravidao nunca desapareceu da Peninsula Iberica. Era proibido escravizar cristaos, mas muçulmanos e judeus podiam ser escravizados. Hereges tambem podiam ser escravizados. Em Portugal, existiam duas categorias de muçulmanos: os escravos (propriedade de individuos) e os livres -- que eram, juridicamente, "escravos do rei", uma classificação que funcionava paradoxalmente como protecao, pois ninguem podia tocar nos muçulmanos sem responder ao rei. Os cristaos eram a unica população juridicamente livre.
A academia contemporanea tenta desvincular-se desse franco-centrismo, explicando aos estudantes que afirmacoes sobre a Idade Media frequentemente se aplicam apenas ao contexto frances e não a toda a Europa.
A historia da Reforma Protestante e da politica religiosa europeia e substancialmente mais complexa do que as narrativas simplificadas -- sejam elas católicas ou protestantes -- costumam apresentar. As alianças politicas transcendiam linhas confessionais; a tolerancia religiosa variava enormemente de regiao para regiao; o protestantismo frequentemente se espalhou por adesão popular, não por imposição principesca; e a Contra-Reforma se valeu sistematicamente da forca militar para recatolizar populacoes inteiras.
O secularismo moderno não e produto da Reforma, mas da tentativa de encontrar um terreno neutro após as guerras de religiao -- tentativa construida sobre a premissa tomista de Razão autonoma, que constitui, na perspectiva reformada, o verdadeiro ponto de ruptura com a cosmovisão crista. A Reforma, como Nietzsche reconheceu, foi um movimento reacionário que resgatou pressupostos cristãos que o humanismo renascentista estava dissolvendo. A missao apologetica contemporanea consiste em tornar esse legado acessivel e defensavel para as comunidades protestantes de hoje.